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Maria Francisca Magalhães Nogueira
Resumo
Pretende-se neste artigo formular algumas idéias
acerca da importância do planejamento como
recurso útil para orientar a gestão das
instituições na tomada de decisão, bem como
alertar para a importância do planejamento na
participação dos atores envolvidos e da
comunicação como auxiliar ao processo de
planejar, implementar e executar. Não se
ocupará, no momento, em aprofundar na formulação
do processo de planejamento e nem em apresentar
roteiros metodológicos. Também não se pretende
tratar do planejamento nos processo de
comunicação.
Palavras chave: Comunicação; Planejamento;
participação.
Abstract
The purpose of this study is to discuss some
ideas about the importance of planning as a
useful resource for guiding management of
institutions in their decision making. It also
alerts for the process of planning, implementing
and executing. It is not aiming, at to deepen
into the formulation of the process of planning,
nor to present methodological guides. It does no
intend either to ideal with the planning of the
communication process.
Key Word: Communication; planning; participation.
Introdução
Existe um crescente interesse dos comunicadores
quanto ao uso do planejamento nas atividades das
organizações e, inclusive, nas de comunicação.
Muitos profissionais dessa área consideram o
planejamento um importante instrumento de
intervenção no ambiente, porque possibilita a
racionalização de ações e a otimização de
recursos. Percebem também que a comunicação pode
contribuir para a implementação de planos,
programas e projetos, mediante a mobilização de
recursos que permitam envolver e integrar
pessoas, difundir informações, dentre outras.
Em virtude disso, esse artigo visa contribuir
com os estudantes e profissionais de comunicação
em sua tarefa de abordar as vantagens da
utilização de planejamento na vida prática das
organizações. Pretende-se, aqui, formular
algumas idéias acerca do planejamento – como
recurso útil ao reconhecimento de problemas do
ambiente, para uma coerente tomada de decisão, e
como meio de sistematizar a participação das
pessoas – e alertar para a importância da
comunicação nesse processo. Não se cogitou,
todavia, de aprofundar a abordagem do processo
de planejamento nem de apresentar roteiros
metodológicos. Também não se tratará do
planejamento nos processos de comunicação;
apenas se verá a comunicação como auxiliar ao
ato de planejamento, implementação e execução.
Algumas organizações, na busca de rápidos
resultados para as suas iniciativas, guardam uma
visão um pouco distorcida do planejamento e
consideram essa iniciativa uma perda de tempo e
de recurso. Essa visão, contudo, tem mudado à
medida que as relações tornam-se mais complexas
e os mercados mais competitivos. Mas ainda
predomina o uso do planejamento tradicional,
voltado para a idéia da formulação, quer dizer,
do apego ao uso da técnica. Começa a entrar em
cena um planejamento que privilegia a presença
do ator envolvido, reconhece a existência dos
problemas e de suas causas e que não parte
imediatamente para a determinação dos objetivos.
1 O planejamento e a determinação dos problemas:
uma questão fundamental
Ações de menor porte e menos complexas podem ser
administradas de modo intuitivo – e, às vezes,
de fato o são -, mas, nem por isso, são menos
eficazes. O ato de pensar com método faz parte,
ou pelo menos deveria fazer, do perfil de quem
ocupa funções diretivas. A complexidade das
relações internas e externas às instituições,
contudo, aponta para a necessidade de se
conhecer o ambiente, as possibilidades e as
alternativas viáveis no enfretamento de
problemas. O reconhecimento dessas necessidades
e o estabelecimento de prioridades permite,
mobilizar recursos e esforços de forma coerente,
precisa e direcionada.
Matus citado por Huertas (1996) explica melhor
essa questão ao dizer que o planejamento moderno
não se propõe a “adivinhar ou predizer” o
futuro, mas a fazer no presente, com base na
análise das causas dos problemas, intervenções
capazes de influenciar os resultados futuros,
para posteriormente propor objetivos a serem
alcançados. Assim, a utilização do planejamento
torna possível a convivência com as surpresas,
pois o que importa são as circunstâncias em que
elas ocorrem e as peculiaridades do fato em
questão, e não a incerteza em si.
A declaração dos problemas passa a ser a questão
fundamental no planejamento não tecnicista,
porque considera o fato de toda ação gerar a
curto, médio ou longo prazo, impactos negativos
e positivos. Ou seja, qualquer proposição gera
custos que refletem nos diversos públicos
envolvidos, que, diante desses custos, exigem,
em proporções semelhantes, soluções nem sempre
conciliáveis. Nesse particular, é bom lembrar
que a pesquisa caminha paralelamente ao ato de
planejar, mesmo porque a própria elaboração e o
desenvolvimento da pesquisa exigem planejamento.
Veja-se, por exemplo, o levantamento de
problemas e suas causas no planejamento do
espaço urbano. A demanda pela construção de uma
avenida em um determinado local pode implicar
crescimento de venda para alguns comerciantes,
mas pode causar a insatisfação de circunvizinhos,
em função de um possível aumento do fluxo do
trânsito, da insegurança etc., pois em toda
situação existe conflito de interesses. Isso
implica dizer que a análise da situação obriga
que se diferenciem as explicações. E quem as
explica deve, consequentemente, apontar
intervenções com objetivos, às vezes,
divergentes ou até antagônicos. No planejamento,
segundo Matus citado por Huertas (1986, p. 15),
“(...) o estrategista não tenta predizer o que
fará o adversário; trata apenas de enumerar
possibilidades para que possa preparar-se para
enfrentá-las. Esse é um caso típico em que o
planejamento não repousa na capacidade de
predição, mas na capacidade de previsão.”
Nessa perspectiva, o planejamento constitui um
mecanismo de suporte às decisões macro e micro
das instituições, e a comunicação, uma forma de
ajudar a viabilizar as propostas, desde a
conscientização, passando pela mobilização, até
a publicização. No exemplo do planejamento
urbano acima citado, a comunicação pode auxiliar
a gestão municipal a buscar o consenso para a
construção da avenida, prestando esclarecimentos
sobre a relação custo-benefício para os
moradores, a fim de garantir receptividade ao
projeto.
O planejamento constitui um processo que, uma
vez adotado, demanda flexibilidade,
acompanhamento, controle e avaliação permanentes
dos esforços empreendidos. Para sua eficaz
implementação, não se deve esquecer que a
participação dos públicos envolvidos é vital.
Além disso, o planejamento possibilita criar,
por meio da análise de cenários, a
conscientização das debilidades e também das
alternativas que, se bem selecionadas, ajudam o
dirigente a elucidar os atores e a estabelecer o
rumo a ser seguido.
2 Planejamento e gestão
As decisões acertadas apóiam-se em boas
intervenções do ambiente em uma seleção apurada
de alternativas possíveis. Nesse aspecto, o
processo de planejamento estratégico dá suporte
de forma bastante satisfatória à gestão, a fim
de que cumpram seus objetivos e orientar a
condução das instituições.
O planejamento estratégico acentua a preocupação
com o meio externo e suas influências nas
atividades da instituição. Mas variáveis
externas, e o que elas podem gerar, nem sempre
fizeram parte das preocupações das organizações.
Esse modelo de planejamento – o planejamento
estratégico, “surgiu como um processo destinado
a garantir um ajustamento entre os objetivos e
os recursos da organização, e as demandas de um
ambiente externo em constante mutação” (ZANIN,
1999, p. 14).
Desse modo, o planejamento estratégico auxiliar
a instituição a se preparar para enfrentar novos
contextos, redefinir o que está sendo realizado,
traçar novos rumos, sistematizar novas ações ou
eliminar as que não têm mais sentido diante de
um novo cenário (ENAP, 1999, p. 35).
A grande variedade de empresas – com diferentes
filosofias, estilos de administração e de
estruturas (em tamanho, tecnologia instalada e
número de pessoal), obriga adaptações das
diversas metodologias de planejamento
existentes. Assim, o planejamento estratégico,
pela sua própria natureza, exige um estilo de
administrar que combine com essa forma de
intervenção na realidade das empresas, ou seja,
um estilo de administração que tenha uma visão
mais global, uma gestão estratégica.
3 Planejamento e participação
É fundamental planejar a participação das
pessoas nos vários momentos da elaboração, do
desenvolvimento e da execução do plano, do
programa ou do projeto. Para despertar o
interesse pela implementação de qualquer tipo de
ação, é necessária, contudo, a construção, a
priori, de uma atividade constante de escuta, de
negociação e de tomada de posição – que pode ser
mediante um consenso, um acordo ou uma recusa -,
com vistas ao ajuste pragmático entre as normas
e as situações, para melhor atingir os
objetivos.
O ato de planejar implica um processo de
participação, pois as pessoas envolvidas se
responsabilizam tanto pelos riscos das escolhas
efetuadas quanto pelos acertos. Um exemplo é o
Orçamento Participativo, implantado por diversas
administrações municipais no Brasil. No caso da
cidade de Goiânia, esse programa tem como
objetivo a democratização do poder público,
mediante uma melhor distribuição dos recursos
orçamentários. Por meio dele, a população,
representada por seus delegados eleitos, decide
onde devem se aplicados os recursos para
investimentos em obras edificadas e
revitalizadas, e em infra-estrutura, como
asfalto etc. Em todas as etapas desse proejto –
implantação, organização, funcionamento e
operacionalização das decisões – a população é
conclamada a participar. Um enorme esforço de
ações de comunicação garante a sua efetivação.
À medida que se esclarecem para os públicos
envolvidos as causas dos problemas e os
objetivos estratégicos e operacionais formulados
a partir deles, mais legítima será a tomada de
decisão e menos arriscada, qualquer iniciativa.
Se os objetivos perseguidos são conhecidos, os
acordos necessários para a elaboração de um
projeto são mais fáceis de serem ajustados.
Quanto menos claro estiverem os objetivos para
os públicos envolvidos, mais a implementação e
os ajustes necessários parecerão arbitrários e
sujeitos às variações de humor dos participantes
– dirigentes, funcionários, etc.
A definição clara de objetivos constitui
requisito fundamental para o aperfeiçoamento
institucional. A explicitação e a
disponibilização de informações sobre os alvos a
serem atingidos e as estratégias a serem
percorridas, que evidentemente aperfeiçoam-se e
ajustam-se no decorrer dos acontecimentos,
constituem, porém, fator importante na
manutenção da credibilidade e da confiança na
honestidade de propósitos das ações empreendidas,
Por isso, alguns cuidados são necessários, não
somente na fase de implantação do planejamento,
mas também durante todo o processo. É importante
municiar as pessoas com conteúdos sobre o
próprio planejamento, com informações que são
incorporadas ao documento – plano, programa ou
projeto – e com outras que deverão ser buscadas
mediante o levantamento de dados. Também é
importante informar as pessoas sobre quem são os
coordenadores do planejamento e os atores
relevantes que integrarão todo o processo.
É evidente também que a natureza da participação
tem relação direta com o sentido de valoração
que lhe for dado. Mas não se travará essa
discussão no âmbito deste artigo. Apenas para
ilustrar, recorda-se o que diz Sánchez (2001,
p.41) sobre o sentido da participação. Para esse
autor, ela pode ser “efetiva ou representada,
passiva ou ativa, legitimadora ou transformadora
de projetos oficiais”.
Não constitui tarefa de fácil realização a
construção de projetos consensuados ou que, pelo
menos, se aproximem das necessidades e dos
desejos daqueles que serão favorecidos ou
desfavorecidos. Segundo Gandin (1994, p. 57)
constituem dificuldades desde a
(...) resistência dos que perderiam privilégios,
até a falta de metodologias adequadas, passando
pela falta de compreensão e de desejo de
realizar (o projeto e, ainda) pelo
constrangimento exercido pelas estruturas
existentes”.
4 Considerações finais
Planejar pode ser uma tarefa simples ou
complexa, dependendo da problemática em questão.
Quanto mais complexo o problema e suas causas,
mais necessário é o compromisso da administração
superior, que tem poder de decisão para intervir
de fato na realidade. O ato de planejar também
implica comprometimento das pessoas envolvidas
e, por conseguinte, da comunicação, uma aliada
nas várias etapas do processo, sobretudo no
esclarecimento e na sensibilização dos envolvido,
na difusão de informações a ele relacionadas,
etc.
A opção por um ou outro modelo de planejamento
depende da necessidade da organização em
determinados momentos. Mas ressalta-se que a
importância está no processo de planejamento em
si, que Gandin (1994, 58) conceitua nesses
termos: “Planejar é utilizar o mesmo método com
a diferença que, ao invés de concentrar-se com o
conhecimento e a explicação da realidade, o
planejamento implica em transformar a realidade
existente e construir uma nova”.
Referências
ENAP. Curso de Planejamento Estratégico.
Brasília: Escola Nacional de Administração
Pública, 1999.
GANDIN, Danilo. A prática do planejamento
participativo: na educação e em outras
instituições, grupos e movimentos dos campos
cultural, social, político, religioso e
governamental. Petrópolis: Vozes, 1994.
HUERTAS, Franco. O método PES: entrevista com
Matus. São Paulo: Fundap, 1996.
SANCHES, Fernanda. A reinvenção das cidades na
virada do século: agentes, estratégias e escalas
de ação política. Revista de Sociologia e
Política. Universidade Federal do Paraná, número
16, p. 31-49, 2001.
ZANIN, Rogério Fortes et al. Planejamento
estratégico – UFSM: Referencial teórico.
Universidade Federal de Santa Maria. Pró-Reitoria
de Planejamento. Santa Maria, 1999.
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